segunda-feira, 16 de setembro de 2013
as pálpebras, ainda um pouco pesadas, se entreabriram. estava escuro. parecia que o dia ainda não estava preparado. nem ela. sentia uma leve ardência no peito. um pequeno arranhão. na verdade estava exposta. ex-posta. sem nem pensar, saia. seus passos firmes por fora, cambaleantes por dentro. dia a dia. dia a dia. antes mesmo do dia chegar.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
fuga
Fugi. Vesti a calça azul que estava jogada em cima da cadeira e aquela blusa laranja mesmo. Sem combinar. Deixei as luzes do meu quarto acesas, pra não suspeitarem de minha ausência. Abri devagarinho as persianas e as janelas e descobri as vantagens de morar no térreo. Subi a rua com pressa. Escuro. E nem percebi que a essa hora da noite já não tinha mais metro. Então resolvi ir seguindo. Andando pela paulista a noite. De verdade, dessa vez, anônima e invisível, a rua vazia. De vez em quando alguém passava. Continuei andando, sem muito rumo, por dessa vez fugi sem fazer planos. Tinha pensado em deixar o celular em casa, mas não consegui. Pensei que seria bom deixá-lo ligado para ver quem me procuraria Continuei andando, com um pouco de medo, por estar muito escuro. O dia me encontrou na rodoviária. Parti em direção a santos. E quando me dei conta, meus pés estavam dentro da água. E só aí me apareceu um sorriso. E lá eu nem percebi que a dor de garganta que me incomodava ontem, já não estava mais. Já não estava ali o excesso de coisas não ditas. Quis sentar-me para escrever. Iniciei com as mesmas palavras de sempre. O mesmo jogo de tentar escrever e não conseguir. Tentar rir e não conseguir. Tentar chorar... Desisti de escrever. Era melhor só olhar para o mar. E imaginar, saboreando quase maliciosamente, como cada um descobriria que eu fugi. E pensei em ligar para alguém e desisti. Era melhor esperar. Comprei uma água de coco. Um milho. Fugi deixando um trabalho salvo no meu computador. Fugi deixando as férias remuneradas. Fugi deixando promessas. Fugi sentindo falta de promessas. Fugi com o celular ligado, não para atender ninguém, mas por curiosidade. Ele tocou algumas vezes. E eu nem fui ver quem era. Me interessava saber que ele tocava. Mas o quem não. Porque eu fugi sem contar para ninguém. Paradoxalmente postei no facebook;.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Minha mãe tem duas irmãs de sangue. Mas ela tem uma terceira irmã. E aí me faltam as palavras. Para uma terceira irmã da minha mãe talvez eu tenha tido pouco contato. Mas eu me lembro de um pão de pizza que ela fazia para as nossas partidas de buraco. Foi assim que a minha prima aprendeu a jogar buraco. E a gente dava uns choques de vez em quando e ela dizia que era bom, que as nossas energias combinavam. E aí morava um grande carinho, talvez nem tanto anunciado. E ela que me levou para um grande sonho da minha adolescência: um reveillon na Paulista. E ela que me acalmou no pré-vestibular. Ela que me deu um olhinho que eu carrego até hoje do lado das máscaras do teatro.
Até que... As reticências tomaram conta. E eu por medo, por essa minha estranha mania de me afastar das coisas com as quais eu não sei lidar, me afastei. E quantas vezes sonhei com ela abrindo os olhos de novo. Sonhei com um abraço. E acreditei naquela história de que era melhor guardar a imagem das pessoas em seus melhores momentos.
Me desculpe.
Eu queria que você soubesse do imenso carinho que eu tenho. Admiração mesmo, pelas suas respostas, seu sorriso.
7 de novembro de 2012
Até que... As reticências tomaram conta. E eu por medo, por essa minha estranha mania de me afastar das coisas com as quais eu não sei lidar, me afastei. E quantas vezes sonhei com ela abrindo os olhos de novo. Sonhei com um abraço. E acreditei naquela história de que era melhor guardar a imagem das pessoas em seus melhores momentos.
Me desculpe.
Eu queria que você soubesse do imenso carinho que eu tenho. Admiração mesmo, pelas suas respostas, seu sorriso.
7 de novembro de 2012
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
sabe aquela expressão: para o mundo que eu quero descer. pois é, parei. parei por um dia. por um dia me escondi dentro de mim. mascando olho com séries bobas, jogos, besteiras da internet. por um dia eu quase me anulei. e não estudei teatro. não dei aula. não fiz nada do que pode ser considerado útil. vivi de inutilidades. e o dia quase chegando ao fim, resolvi escrever um rascunho. sem querer que as palavras fossem bonitas. uma vontade dolorida de chorar. assim, desafogar um peso. me desafogar. me esconder dentro de mim. péra mundo, pára mundo, gira mundo. que eu quero chorar. que eu quero sorrir. que esse rio não tá dando pé. me visto de todos os motivos para suportar. uma vontade dolorida de viver. por que é que a gente tem que trabalhar tanto até se transformar em máquina, ou manchar a alma de tédio. uma vontade dolorida de declarar uma liberdade que ainda demora 58 dias úteis. porque o pára um pouquinho, descansa um pouquinho parece não funcionar.
vontade de transbordar essa rotina. de não caber mais dentro dela. de não domar mais esse leão todos os dias, ao passar aquela porta. não quero me domar.
vontade de transbordar essa rotina. de não caber mais dentro dela. de não domar mais esse leão todos os dias, ao passar aquela porta. não quero me domar.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Bolinha de papel
E insistiu em falar dele. Acreditou que dessa vez encontraria as tais palavras bonitas. Acreditou e pode ser até que se decepcionasse ao longo do texto. Mas ao som de Arnaldo Antunes quase arriscou-se a escrever em primeira pessoa. Riu-se. Quis encontrar palavras tão puras e belas como as da música: "te fazer feliz dos pés à ponta do nariz".
"Da orelha até o fim do mundo"? Outros lhe respondiam Pa-la-vras. Estranhou. Já tinha as dito alguma vez. Até seguido depois e quase apesar delas. Brincara com as letras em despedidas. Mas algo era maior do que aqueles desenhos. Descobria o que o mundo inteiro parecia já ter descoberto? Quis acreditar que era um achado só seu.
Aqui-agora. Havia um pulsar. Uma vertigem. Verdade. E lhe invadia em um sorriso. Vertigem. Podia então sorrir e seguir. (Já se sentira inteira seguindo apesar das palavras). Não quis. Des-palavreou-se. Negou os sentidos das letras.
Quis só olhar e dar as mãos. Hesitou, mas sentia-se "apaixonada pela primeira vez na vida". E pela primeira vez na vida não era adjunto adverbial de tempo. Era adjunto adnominal de sentimento. E havia um pulsar. Aqui-agora.
Pois é, decepcionou-se com as palavras. Não eram puras e nem bonitas. Nem falam do medo. Do sorriso. Do pulsar. Da vertigem. Nem da vontade que ele coubesse em seus braços e transbordasse.
Quis resumir em um abraço ou viver o tal abraço e transbordar.
Palavras. Despalavreou-se. As letras não pulsavam. Mas quisera que fossem bonitas. Decepcionou-se. (Riu-se. Quase em rubrica ainda queria tanto dizê-lo!)
Arrancou a folha de papel do caderno. Bolinha. Jogou no lixo.
(Sobrou um silêncio recheado de pulsares, sorrisos e verdades)
terça-feira, 21 de agosto de 2012
entre Ela e Lori
chovia. por pura falta de palavras, começou este texto como tantos outros textos pretéritos. não só por falta de criatividade, mas porque queria que chorasse a chuva que por ela chovesse. e chovia. ao fundo, mesmo com a visibilidade restrita - não se sabe se pelos olhos ardidos vermelhos ou pela cinza da chuva - ela podia vislumbrar o mar.
mas ela não podia escrever sobre a mulher que de madrugada entrava no mar e tinha cabelos de náufrago. já estava escrito antes dela. se bem que... entrar no mar na chuva não ocorrera a Lori. e seria tão ela, tão Ela. e mas do que correr um perigo nunca antes feito por um ser humano, ia desafiar Lori. podia fazer o que todos já antes haviam feito, mas não a amante de Ulisses.
resolveu contentar-se em caminhar na chuva. as gotas escorrendo-lhe, grossas, pelo seu corpo nu coberto de roupas. a porta inevitável instalou-se à sua frente. porta que lhe dividia. entre a sexta e a segunda, ou entre a segunda e a sexta. respirou. e entrou.
respirou. e entrou.
respirou. e entrou.
respirou. e entrou.
respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.
não conseguiu gritar. não pode sair. podia entrar, todos os dias. entrar.
respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.
não conseguiu entrar. não conseguiu escrever.
não conseguiu.
chegou então onde queria chegar. a junção do adverbio de negação NÃO, com o tal do verbo CONSEGUIR.
qual a melhor metáfora para falar sobre fracasso?
talvez fosse melhor recomeçar o texto com outra palavra. quando chovia, a natureza carregava em si uma realização. a chuva lavava o seu corpo nu coberto por roupas. caminhar era piegas mesmo, enquanto andava, ela movimentava dentro dela a dinâmica pensar-limpar.
restava-lhe esperar, ansiosamente uma visita ao mar. quem sabe ele ainda estava no mesmo lugar e ela pudesse brincar de Lóri?
mas ela não podia escrever sobre a mulher que de madrugada entrava no mar e tinha cabelos de náufrago. já estava escrito antes dela. se bem que... entrar no mar na chuva não ocorrera a Lori. e seria tão ela, tão Ela. e mas do que correr um perigo nunca antes feito por um ser humano, ia desafiar Lori. podia fazer o que todos já antes haviam feito, mas não a amante de Ulisses.
resolveu contentar-se em caminhar na chuva. as gotas escorrendo-lhe, grossas, pelo seu corpo nu coberto de roupas. a porta inevitável instalou-se à sua frente. porta que lhe dividia. entre a sexta e a segunda, ou entre a segunda e a sexta. respirou. e entrou.
respirou. e entrou.
respirou. e entrou.
respirou. e entrou.
respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.
não conseguiu gritar. não pode sair. podia entrar, todos os dias. entrar.
respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.
não conseguiu entrar. não conseguiu escrever.
não conseguiu.
chegou então onde queria chegar. a junção do adverbio de negação NÃO, com o tal do verbo CONSEGUIR.
qual a melhor metáfora para falar sobre fracasso?
talvez fosse melhor recomeçar o texto com outra palavra. quando chovia, a natureza carregava em si uma realização. a chuva lavava o seu corpo nu coberto por roupas. caminhar era piegas mesmo, enquanto andava, ela movimentava dentro dela a dinâmica pensar-limpar.
restava-lhe esperar, ansiosamente uma visita ao mar. quem sabe ele ainda estava no mesmo lugar e ela pudesse brincar de Lóri?
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
das coisas que a vida tem
a vida tem dessas mesmo. o ônibus tem o piso brilhante, que é pra gente lembrar de cantigas de infância. eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, só pro meu, só pro meu amor passar.
a vida tem dessas mesmo. uma semana de espera. e te pedem para ler esperando godot.
a vida tem dessas mesmo. assim, de repente, já é domingo a noite. e você, que não quer se lembrar da real ocupação, que lhe bate na porta junto com a tão famosa melodia "fantástica", descobre que é dia do ator.
a vida tem dessas mesmo. uma semana de espera. e te pedem para ler esperando godot.
a vida tem dessas mesmo. assim, de repente, já é domingo a noite. e você, que não quer se lembrar da real ocupação, que lhe bate na porta junto com a tão famosa melodia "fantástica", descobre que é dia do ator.
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