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terça-feira, 21 de agosto de 2012

entre Ela e Lori

chovia. por pura falta de palavras, começou este texto como tantos outros textos pretéritos. não só por falta de criatividade, mas porque queria que chorasse a chuva que por ela chovesse. e chovia. ao fundo, mesmo com a visibilidade restrita - não se sabe se pelos olhos ardidos vermelhos ou pela cinza da chuva - ela podia vislumbrar o mar.

mas ela não podia escrever sobre a mulher que de madrugada entrava no mar e tinha cabelos de náufrago. já estava escrito antes dela. se bem que... entrar no mar na chuva não ocorrera a Lori. e seria tão ela, tão Ela. e mas do que correr um perigo nunca antes feito por um ser humano, ia desafiar Lori. podia fazer o que todos já antes haviam feito, mas não a amante de Ulisses.

resolveu contentar-se em caminhar na chuva. as gotas escorrendo-lhe, grossas, pelo seu corpo nu coberto de roupas. a porta inevitável instalou-se à sua frente. porta que lhe dividia. entre a sexta e a segunda, ou entre a segunda e a sexta. respirou. e entrou.

respirou. e entrou.

respirou. e entrou.

respirou. e entrou.

respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.

não conseguiu gritar. não pode sair. podia entrar, todos os dias. entrar.

respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.

não conseguiu entrar. não conseguiu escrever.

não conseguiu.

chegou então onde queria chegar. a junção do adverbio de negação NÃO, com o tal do verbo CONSEGUIR.

qual a melhor metáfora para falar sobre fracasso?

talvez fosse melhor recomeçar o texto com outra palavra. quando chovia, a natureza carregava em si uma realização. a chuva lavava o seu corpo nu coberto por roupas. caminhar era piegas mesmo, enquanto andava, ela movimentava dentro dela a dinâmica pensar-limpar.

restava-lhe esperar, ansiosamente uma visita ao mar. quem sabe ele ainda estava no mesmo lugar e ela pudesse brincar de Lóri?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

das coisas que a vida tem

a vida tem dessas mesmo. o ônibus tem o piso brilhante, que é pra gente lembrar de cantigas de infância. eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, só pro meu, só pro meu amor passar.

a vida tem dessas mesmo. uma semana de espera. e te pedem para ler esperando godot.

a vida tem dessas mesmo. assim, de repente, já é domingo a noite. e você, que não quer se lembrar da real ocupação, que lhe bate na porta junto com a tão famosa melodia "fantástica", descobre que é dia do ator.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

como cinco irmãos.

mãos dadas. lhe haviam dito uma vez que os amigos eram irmãos que a gente escolhia. talvez tivesse achado um pouco piegas. mas olhou discretamente para trás e descobriu que a amizade era assim como imaginava que talvez fossem dois irmãos. ou mais irmãos. e foi diretamente pensar em cinco irmãos que ela tinha. agora assim, meio espalhados nessa tal de vida adulta. ela, no meio de engenheiros e médicos. ela meio assim artista (tentando ser o que sabe-se lá o que é um artista). ela e a outra, também artista.
lembrou-se como foi o caminho até lá. das tais das voltas que o mundo dá. e não só as literais dos movimentos da terra em volta do sol e ao redor de si mesma (desses, por mais que tentasse não conseguia lembrar os nomes).
esses irmãos nasceram assim de uma época na qual ela teimava em não fazer escova. da mesma maneira que hoje continuava sendo chato esperar o cabelo secar com o secador, para não dormir de cabelo molhado. tarefa que acaba de abandonar para escrever.

ela perdida, eles ali. meio tímidos se aproximaram (ela e eles).
lhe perguntaram se podiam riscar no gesso de seu braço quebrado.
ela deixou.
lhe convidaram a sentar. ela se aproximou.
lhe sorriram. ela abraçou.

parecia então o tal do final feliz. talvez fosse apenas o começo.
escolhas. ideias. diferenças.
duas artistas, duas engenheiras, uma contadora, um médico.
as artistas fizeram ballet. as engenheiras fizeram poli. a contadora casou. e o médico sumiu.
a atriz foi ensaiar aos domingos. a radialista tem os finais de semana loucos. uma engenheira foi fazer mestrado, a outra estagiar na construção. a contadora foi se deliciar na culinária. o médico? sumiu!

e dessas escolhas surgiram caminhos e curvas. e outras escolhas.
e nem sempre tudo foi fácil.

a atriz, mais conhecida como eu lírico desse texto, as vezes sentiu algumas mudanças. (com certeza as outras também sentiram, mas o eu lírico desse texto não é onipresente). chorou algumas escolhas, negou alguns desencontros. achou que era demais.

e de repente se viu ali. no meio deles. sem timidez e sem dúvidas. certa do como era bom sentí-los por perto. e do como, depois dessas voltas, os sentia mais perto.

elas se encontram no próximo sábado. ele respondeu um email
nada apaga os anos de convivência diária.
nada apaga o cuidado que queria ter com cada um.
nada diminui o amor e o carinho.

nem mesmos as diferenças sustentam os rótulos.

são confidentes como dois irmãos. ou cinco.

domingo, 13 de maio de 2012

E ele me diz que gosta de mim quando eu sou eu, mesmo de tpm e, com as consequentes lágrimas nos olhos. E o amor no dia a dia é assim. Perde a sua pretensão de ser perfeito. E passa a ser pretensiosamente concreto, real. Colorido de detalhes, aquarelado com momentos, carinhos, cariño... Giz de cera que se despedaça em sentimentos, sensações. Porque eu até posso tentar ser perfeita para ele, mas todas as tentativas, me levam a quem eu sou. Assim, desse jeito, menina, menininha, que eu sou só do seu lado (que eu nego até a morte). Sem armas, desarmada em cócegas, perdendo a concentração... Ele eu deixo me conhecer frágil e pequena. Ele eu respeito, eu quero do meu lado, eu admiro demais.
EU AMO.