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quarta-feira, 30 de junho de 2010

No final do corredor

A minha única realidade resumia-se às quatro paredes daquela casa escura e fria. Havia apenas mais uma mulher vivendo comigo. Foi com ela que aprendi que não existiam outras pessoas no universo e que a luz do sol, sobre a qual li muitas vezes nos livros, era apenas fictícia.

Hoje eu entendo que todas aquelas palavras e informação que recebia era uma forma que aquela mulher tinha de me manter presa a ela e à casa. Eu acreditava e sabia apenas o que lhe convinha. Ela me controlava dizendo que a grande porta no final do corredor não deveria ser aberta: era perigoso atravessá-la e não havia nada além dela.

Geralmente, eu vagava os corredores durante horas tentando buscar algo novo em que acreditar. Novas realidades, talvez. Algo que pudesse tomar conta de um vazio que eu sentia. Naquele dia foi diferente: vi uma janela na sala sobre a qual nunca tinha demorado o olhar.

Por um momento senti uma grande vontade de abri-la. Porém, algo me deteve. Não, eu não estava pronta para descobrir um mundo além do que eu vivia. Sentia que faltavam algumas explicações, mas eu não tinha coragem de desvendá-las.

Apesar de não tê-la aberto, a janela não saia de minha cabeça. Corri para o quarto daquela mulher que morava comigo.Tinha a certeza de que ela me daria uma explicação dentro de tudo o que eu sempre acreditei. Mas ela estava morta na cama.

Não pude crer. Não era apenas uma pessoa que morria. Morria o mundo no qual ela me fizera acreditar, minha realidade. Percorri pela última vez aqueles corredores e decidi que eu podia destravar aquela porta e aquele mundo que me bloquevam. E foi então que eu abri a porta e não acreditei no que via...

2003

segunda-feira, 28 de junho de 2010

BEIJO

Fecha o livro. Na capa as letras se juntam: "Esperando Godot". Uma ladainha qualquer na televisão. Esgasgara na última página. A janela abafa um pouco o som dos apitos, buzinas. Das máquinas que cospem a manhã.

- Vamos, acorde!

Bebidas, discussões, planos: "Vamos mudar o mundo". No barzinho, uma rodada, outra... "Não, eu acho que o sistema"... O que foram aquelas palavras, aquela euforia, aquela verdade, aquela vontade? No fundo o que sempre existiu era aquele vazio. Um quarto fechado com uma TV ligada. E alguém ao seu lado que não quer acordar.

Paredes brancas e uma colcha branca e pesada. Desliga a TV. Vive aquele silêncio por alguns instantes. Rádio. Caminha pelo quarto, os pés descalços. Vocal de Cazuza: "E aquele garoto que ia mudar o mundo, mudar o mundo...". Observa os pés descalços:

- Vamos, acorde. Me diz que a gente pode. Acorde. Ah, me deixa gozar de novo aquela potência. Ou será que ela só existiu com os pés na água, caminhando na praia, sobre a lua cheia? Ou de madrugada, numa mesa de bar?

"Ideologia, eu quero uma para viver". Aperta violentamente o botão que desliga o rádio. Tenta chorar. Não consegue. Silêncio. Pelada, pela janela tenta viver a realidade, sentir a realidade. Lembra-se do dia anterior, no bar, as pessoas discutem uma reportagem, a vida no tráfico... a vida real. Tenta abrir as janelas e simplesmente não consegue.

Tem uma vontade súbita de escrever, começa a imaginar frases inteiras. Pega o papel e a caneta e simplesmente não sai frase nenhuma. Tenta chorar e não consegue. Silêncio. Ri. Ri. Ri. "Será que eu sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?". Parodia Clarisse Linspector. Tem vontade de citar tantos nomes. Pessoas, escritos, músicas, filmes.... Ri.

- Vamos acorde. A vida está acontecendo agora. Tudo o que discutimos toma rosto agora. Toda a nossa vontade deveria ser hoje, agora. Mas você dorme e tudo é essa parede branca.

"Essa papo meu tá qualquer coisa.... Esse papo seu já tá de manhã". Rádio. Tenta chorar e não consegue. Volta para o livro. Lê as últimas frases. "Vamos nos enforcar amanhã então". Niilismo. Ideologia. Morte das ideologias. Uma pessoa dormindo ao seu lado. Sem mais. Meio dia.

Ele - Arcodada já? É cedo.

Ela - Não é não.

Olha para o livro na mão dela: "Becket!" Lembra-se da palestra, sobre sei lá o que, que têm na faculdade.

Ele - Vamos embora?

Ela - Não podemos!

Ele - Por quê?

Ela - Estamos esperando Godot.

Ele - Ah, é! (Ri)

Beijo. E cai o pano.

2006

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O vendedor de sonhos

Era uma vez um menino
que vendia felicidade
sonhos de todos os tipos
primeiro pequenos,
depois grandes

O menino não aguentou
os sonhos se complicavam

Acabado tudo isso
seu sonho mesmo
não realizou
pois alegrar a todos
é impossível!

(1997 - o texto mais antigo que tenho guardado)