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domingo, 28 de novembro de 2010

Confesso que vivi. O Nerruda está assim, na cabeceira da minha cama, contando um pouco das suas histórias por dia, tirando o meu sono, me ninando, me embalando, me desafiando. Confessando-me que viveu. E hoje cá estou eu. Entre o Nerruda e o Tchéckhov, tentando construir uma cena. Um decisão. Uma vida. Entre a Irina, e a mulher dos olhos verdes. A duas semanas de uma estreia, da estreia de um projeto que me encanta, me instiga, me move e me apaixona a cada ensaio, a cada segunda e quarta feira.
O sol lá fora e eu aqui, vivendo nas paredes do meu quarto. Deitando na cama, escrevendo no computador. Porque amanha é segunda e vida bate na porta. A vida não, a sobrevida. E eu tenho vivido na dúvida. Mas por mais bizarro que pareça tenho descobrido muitas coisas. Porque depois das responsabilidades, que dificultam a vida, eu descobri um sabor especial em cada vitória e conquista. Cada passo que eu acerto é meu, só meu. A alegria vem em dobro me arrastar e me virar de ponta cabeça.

Agora eu acenderia um cigarro, se por acaso eu fumasse.

domingo, 10 de outubro de 2010

Novo domingo. De novo, domingo? Porque insiste em me visitar, em me virar e revirar? Deve ter sido em um domingo que uma vez escrevi no orkut que também era feita de despedidas. Acho que o domingo também tem um quê de despedida.

domingo, 1 de agosto de 2010

Feliz aniversário

Se lembrou repentinamente de duas falas. A primeira que tinha ouvido de um médico (que tinha mais de monstro que de médico) aos seus oito anos. A segunda que tinha dito em um de seus momentos de desespero aos 11 anos. Haviam lhe dito que podia ter um enfarto aos 22 anos e morrer. E havia se dito que se vivesse até os 22 anos, viveria o dobro do que vivera até o momento.
Era um dia após ter feito 23 anos. E ela continuava lá, com o reumatismo (causa da visita ao médico) cada vez menor. Ela estava lá, graduada, empregada, formada, com registro profissional na carteira, diploma universitário, CPF, título de eleitor, declarando o IR (nesse ano pela primeira vez). E mais, ela estava lá, concursada. Sim, funcionária pública, com direito a carteira assinada, vale transporte, vale refeição e FGTS.
Por ironia talvez ela tinha as duas garantias mais almejadas: o funcionalismo público e a carteira assinada no mesmo emprego. Por ironia ou por uma mudança na política de contratação de servidores estatais. Não importa. O fato é que tinha. E era verdade também que era empregada, funcionária pública de carteira assinada na mesma universidade pela qual era graduada, licenciada e possuidora de um diploma universitário cuidadosamente guardado em um envolope.
Invejada e almejada, a menina contava com um salário fixo todo o mês e mais alguns bônus, provenientes a alguns destes títulos anteriormente citados. Mas talvez a ironia se escondesse por aí. Porque ela insistia em achar irônico. Profissionalizada pela Universidade para trabalhar com gente, profissional da Univerdade para trabalhar com números. Formada na Universidade para criar, formatada na Universidade para repetir.
De novo repentinamente, se lembrou da promessa que se fez aos 11 anos. Dar um jeito de prolongar a sua vida, quando fizesse 22, até os 44, depois até os 88, e até mais, porque ela queria viver bastante. E com 23 anos e um nó na garganta, pensou que ela tinha sim morrido um pouco. Morrido porque ela não queria ser concursada, empregada e declaradora de IR. Ela queria ser mais. Tinha até os 22 anos, vivido para alimentar e viver de suas paixões.
Mas tinha se prometido que ia prolongar a vida, multiplicá-la por 2, por 2 e por mais, porque ela queria viver bastante. Nunca lhe tinha ocorrido sobreviver bastante. Sobre viver... Viver apaixonada. Brega? Pode ser. Ela até concordava que era radical. Mas ela queria transbordar, seus títulos, seu emprego, sua espera pelo fim de semana, sua falta de prazer das oito as cinco. Relembrou um de seus antigos textos: tinha que brincar de inventar novos futuros. Não, tinha que brincar de inventar novos presentes.

É, feliz aniversário...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sobre as eternidades

Ando pensando sobre os relacionamentos. Tentando entendê-los, compreendê-los. Talvez devesse sentí-los. Talvez seja por setí-los demais. Durante toda a minha adolescência eu esperei por um namorado, procurei um conto de fadas no tom dos amores e paixões. O que talvez eu não percebia era que eu vivia um conto de fadas com relação à amizade. Pessoas que foram essenciais para a minha formação como pessoa. E naquela época eu acreditava que os amores até podiam não ser eternos, mas os amigos eram.
O dia do amigo era o meu melhor dia do ano, dia de longas cartinhas. Este ano, no dia do amigo eu li um post interessante por algum lugar da internet. Haviam dois tipos de amigos, o fita cassete, que quando vc ouve parace que nada mudou e que o tempo não passou e aquele que marca um dado momento da sua vida. As pessoas costumam julgar mal esse tipo de amigo. Costumam dizer que amizade verdadeira é para o resto da vida e que se for apenas de um momento, foi um passatempo.
Eu discordo. Tenho amizades infinitas, cúmplices de um dia da minha vida. Pessoas que eu julguei eternas e presentes para sempre, que se afastaram do meu caminho. Que foram cúmplices indispensáveis, inseparáveis. E que já por isso foram belíssimas. Mas que hoje não dividem mais as mesmas risadas, as mesmas compreensões, o mesmo silêncio de significados. E por isso eu já chorei, já tentei ser quem não era. Me desesperei, me perdi. E hoje compreendo a beleza de nos deixarmos ir. Talvez assim, devagarinho, como um perfume que se desapega da pele. Porque eterno não é o que dura pra sempre. Eterno é o que me marca para sempre.
Esquecê-los jamais. Porque são eternos demais.

2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Para o meu amor...

Riu-se. Um dia tinha desacreditado que podia viver isso. Talvez por ter tanto desejado e esperado. Esperou ser feliz, ouvir palavras sussurradas ao pé do ouvido. Desejou um beijo, um abraço. Sem saber o que era isso o que desacreditava. Riu-se por descobrir que o amor era mais. Era mais do que só os risos, as danças, os beijos, as certezas.

Entre as suas mãos dadas às do outro existia um mundo dado. Um mundo de perguntas e dúvidas, de respostas e certezas. De risos e lágrimas. De beijos e de despedidas. De telefonemas esperados, queridos, inesperados. De costumes e medos. De momentos inesquecíveis, alguns até que queria esquecer. De imprevistos.

E de se entregar. E de se entregar corria o risco de mostrar e de ver todos os seus lados, os seus medos, o seu melhor e o seu pior. E foi aí que ela descobriu que era um constante risco, mesmo com quase dois anos, mesmo com a beleza que ela tinha achado na tranquilidade. O risco de viver, de dividir, o risco de ser sem nenhuma máscara. E aquele rico era uma escolha, era também uma possibilidade de ser feliz.

E o amor ia assim, brincando com ela, ela brincando com o amor. Entre rabiscos, pinturas, giz de cera... Colorindo-se em um acordo noturno sobre os cobertores. Um almoço gostoso no domingo. Num saber não estar mais sozinha. Por ter forças. É claro, também nos beijos, abraços, momentos de êxtase. Mas acima de tudo nas mãos dadas. Onde dois mundos dão as mãos.

O amor se constrói talvez nos paradoxos.E por ser assim, nem sempre certo, nem sempre seguro. Por ser assim, risco. Ela sorria, e era tão doce sorrir.

2010