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sábado, 10 de setembro de 2011

para o meu cariño



Dele tinha umas saudades que tomavam todo o seu corpo. Umas saudades que chegavam assim, de repente, e dava uma vontade incontrolável de dizer: cariño. Dele tinha umas saudades, que eram assim, gosto de morango. E mesmo sendo saudades, dela tinha uma sensação de não estar mais sozinha.
E nele tinha um sorriso bonito. E nela, uma risada que era só dele. Ou só pra ele. Ou só daquele sorriso dele.
E eles tinham carinho.
Para o meu cariño.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Pelo lado piegas que há em mim...

O relógio da estação denunciava: 18h15. Era cedo. O tal relógio denunciava que era cedo. No trem, o seu silêncio lhe dizia: aula, dança... falta de ânimo. E, talvez até por ironia, ela ia de costas no trem. De costas e sempre prestando atenção nas estações que se seguiam (para frente). Um menino coçava o nariz, ali do lado uma moça lia o jornal, do outro uma senhora tricotava. Alguém falava feliz com o filho pelo celular. E ela? Ela ia de costas no trem. E escrevia.

Escrevia e pensava. Quase torturava-se. Desanimava-se. Como faria para seguir aquilo que era (para ela) o ideal de uma professora? Pensava na dificuldade. Ou melhor, nas dificuldades. A instituição escolar, a instituição educação. E a sua dificuldade, ela.

Estação São Caetano. "Faltam poucas estações". E muitas as palavras ainda a serem escritas. Desânimo novamente. Mas... Riu-se. E aqui, pediu desculpas e permissão para ser piegas. Mesmo com a vontade de desistir, algo dentro dela pulsava. Não sabia ao certo se potência ou crença. Talvez uma mistura destas. A idéia da troca de experiências em uma sala de aula ainda pulsava dentro dela.

E pediu novamente licença, dessa vez para escrever em primeira pessoa. Porque eu não sei ao certo o que eu quero dizer ao mundo, mas sei que o encontro, a experiência e a troca ainda me seduzem e instigam. Ou melhor, pulsam. Tanto na educação quanto no teatro.

"E riu-se novamente por achar que tinha sido piegas"

quinta-feira, 17 de junho de 2010

E continuou a chuva. Mas agora as gotas mudaram o seu gosto. Eram gotas de gostos novos. E de olhos novos. Abriu os olhos e estranhou. Não sabia se era a chuva, as gotas, o gosto ou os tais olhos. Mas estranhou. Mesmo assim, levantou. O caminho era o mesmo de sempre, a avenida tão movimentada quanto ontem. E as lágrimas da chuva continuavam a animá-la. Procurou encontrar o que de diferente se escondia naquele cenário tão próprio de seus textos e histórias.

Era como se acordasse de um sonho. E, ao abrir os olhos, encontrava menos. Menos motivos, menos motivações. Menos por-vir. Sentia-se flutuando, de nuvem em nuvem - ou gota em gota - no futuro. Acordara de um sonho, no futuro. E, apesar da chuva, as suas gotas tinham um gosto novo. E gotas-gosto-olhos-nuvens a faziam estranhar. Como é que era agora, no futuro? Entusiasmo e desilusões a arrebatavam. E o tédio gotejava, junto com a chuva-a-gosto. Tira gosto.

Fotografias e negativos passavam pela sua cabeça: "Eu não quero ser uma formiga", "Eu amo isso, sei que é o que eu quero fazer da minha vida". Pronto, fizera a faculdade. Seguira o teatro. Mas... e agora? Qual a sua garantia de não ser uma formiga? Qual o sabor do gosto das gotas para as formigas? Qual o sabor da vontade para as formigas? E o sabor do tédio? Sentia um formigamento nos membros. Uma voz lhe insistia: e agora?

E agora? As gotas não tinham mais o gosto de promessa. De espectativa, de antes. Elas tinham o gosto do depois.

E em meio as gotas-gosto de chuva, decidiu que tinha que inventar um novo futuro.

(início de 2009)