quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

 MEUS OLHOS ARDEM. Eu não quero mais apertar o botão de começar. Eu já sei o que vai acontecer. Mas não sei. Aos poucos, alguns entram na vídeochamada. Como vocês estão? Como vai a escola? E o isolamento? Aos poucos as risadas e as respostas me acalmam. Mas há esse segundo, esse minuto, em que tudo o que eu sinto é  vontade de NÃO. E eu me olho de fora. Penso em como alguém gesticulando, rindo e tentando fazer sentido essa tela. Quem me visse de fora, me veria só. O silêncio marca o tempo. Estou só. Ao mesmo tempo 10, 15, 20 pessoas me observam. Na minha casa, no meu quarto. E eu não posso dizer NÃO. E nem dar vestígios que eu quero/penso no NÃO. As câmeras, desligadas. O pedido. REPETIÇÃO. A minha repetição. Os risos que vem depois. Algumas desculpas. Algumas imagens aparecem, mas é fugaz. Logo, as imagens se esquecem. Vocês estão me ouvindo. As câmeras, desligadas. O pedido. REPETIÇÃO. A minha repetição. Os risos que vem depois. Algumas desculpas. Algumas imagens aparecem, mas é fugaz. Logo, as imagens se esquecem. Vocês estão me ouvindo. As câmeras, desligadas. O pedido. REPETIÇÃO. A minha repetição. Os risos que vem depois. Algumas desculpas. Algumas imagens aparecem, mas é fugaz. Logo, as imagens se esquecem. Vocês estão me ouvindo. As câmeras, desligadas. O pedido. REPETIÇÃO. A minha repetição. Os risos que vem depois. Algumas desculpas. Algumas imagens aparecem, mas é fugaz. Logo, as imagens se esquecem. Vocês estão me ouvindo. 

(Temos que ser justos, há imagens que ficam e nos dão as mãos, às vezes. Mas sinto que esse número vai se esvaindo aos poucos). 

Eu olho para mim, às vezes. Deixo na minha imagem, para ter alguma resposta. Conto para mim a história do teatro que já sei (e às vezes parece que não sei). Tento reinventar o conteúdo. Me convencer da novidade. Alívio. Surge uma voz, ou uma caixinha de mensagem. O tempo se esvai. Escorre, demora. O tempo se esvai. Escorre, demora. Abro alguma outra janela, uma mensagem, uma notícia. O tempo se esvai. Escorre, demora. Uma notificação, uma dúvida, de outra turma, outro termo. O tempo se esvai. Escorre, demora. Um site, que me relembra alguma data. Um eco de alguém que fala. O tempo se esvai. Escorre, demora. O tempo se esvai. Escorre, demora. O tempo se esvai. Escorre, demora. O tempo se esvai. Escorre, demora. MAS PASSA. DESLIGO. O alívio. O corpo se entrega ao chão. E, por um segundo, se esquece que amanhã recomeça.


NOVEMBRO/2020

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Silenciar. A capacidade das palavras de transformar o silêncio em ação. Um quê de fascínio. Ela levantou-se, ali, naquele quarto de paredes não mais tão brancas. 
Silenciar. Silêncio-ar.  Respiração.
E ela ali, entre a passividade, sujeit(a) de passagem. Território de transição.
Uma manhã, falada de silêncio. E as palavras - sentidos - pareciam querer explodir da garganta.
Como sempre ela imaginou um texto. Bonito? 
Mas (hesitou) (exitou) ao preencher a página em branco. 
Entre o excesso e a ausência. Silêncio. 
Silenciar. Si-len-ci-AR.
Ela quis ser vento, e deixar o ar entrar. Cessar os barulhos externos, internos que não a deixavam escutar e ela nem bem sabia o quê.

Silenciar. Ela quis transformar o silêncio em verbo. Evidenciar-se enquanto perigo, território de si.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Janelas. E quartos. E salas. E pequenas câmeras. E os sorrisos. Aos poucos a gente se convence de resignificar. O corpo, os espaços, as relações. E a gente que vive de arte, que respira arte, tenta seguir. Num primeiro momento a inação assustou, um cheiro inebriante de limbo. Tentei me convencer a resignificar os dias pela arte. Como é bom aquecer o coração próximo dos nossos. E viver dos vídeos. E viver ressoando próximo aos nossos.
Mas hoje eu acordo. Acordo com tubaina, com cloroquina, com João. Acordo com uma risada sarcástica, uma piada inadmissível. E novamente esse cheiro nauseabundo de limbo toma conta. Não há perfume ou forma de dissipar. E novamente a sensação de estar em um penhasco, em um carro desgovernado.
A gente faz arte porque a vida não nos basta. E vamos continuar fazendo.
Mas das nossas janelas, aos poucos, me parece que a gente se desmobiliza. A gente vai deixando até a janela. Estamos cansados, esgotados. Isolados, a gente se aliena também um pouco. E as vezes se alienar é remédio. Porque nos falta o ar. (Acho muito paradoxal que esse vírus nos tire o ar e nos aperte o peito, assim como nossa realidade) Porque é difícil viver uma vida que nos mandam tomar tubaína. Nada contra a tubaína, por favor (peço licença aos valores nutricionais). Tudo contra a cloroquina, enfiada goela abaixo junto com todas as outras coisas que nós temos que engolir. Diariamente.
E aí eu tento escrever ficções. Me alimentar dos raios de sol. Envolve-los como abraços e viver dos beijos ainda por viver.
Mas aí vem João, assassinado na sua casa. E aí vem as invasões nas terras indígenas (por meio de armas ou de doenças). E aí vem tantas coisas que fazem esse um dia que eu não quero viver.
Eu penso na rua. E no espaço que cabe aos corpos. Vínhamos tentado refletir a rua como espaço político de existência. Mas aí não é. E nem o espaço privado é direito de todos. Isso antes da pandemia. O público e o privado são em tempos normais já excludentes o suficiente.
E aí não ir pra rua é ato de sobrevivência. E a sobrevivência no nosso país já é política há muito tempo (e continua sendo agora, talvez só estendida a outra parcela da população). tanto é, que cada um que morre a gente repete: presente. Querendo garantir aquela velha história que se pode matar uma pessoa mas não uma ideia. Mas me parece que as ideias estão sim sendo mortas. Que a nossa resistência ideológica míngua, se desfalece aos poucos. Cada um das nossas salas, tentamos nos conectar à beleza da vida. Pra nos manter vivos e sãos. Ansiando pela vida lá fora. Mas a vida lá fora é uma realidade tão dura. E as vezes eu acho que a gente vai fechando as janelas. E vai tentando recriar nas abas do computador e do celular.
Talvez seja uma escolha de Galileu. Talvez a gente precise optar pela sobrevivência.
Mas e ai, quando um jovem é morto dentro da sua casa. O que resta? Ele não pôde optar pela sua sobrevivência.
Quem pode sobreviver? Que pode optar por sobreviver? Pergunta que se faz e refaz, como um eco.
Me parece que a gente vai se corroendo de distância entre as classes sociais, de fome, de abismos de condições.
Não tem nem cloroquina, nem tubaína que nos salve. E nem vinho...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

as pálpebras, ainda um pouco pesadas, se entreabriram. estava escuro. parecia que o dia ainda não estava preparado. nem ela. sentia uma leve ardência no peito. um pequeno arranhão. na verdade estava exposta. ex-posta. sem nem pensar, saia. seus passos firmes por fora, cambaleantes por dentro. dia a dia. dia a dia. antes mesmo do dia chegar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

fuga

Fugi. Vesti a calça azul que estava jogada em cima da cadeira e aquela blusa laranja mesmo. Sem combinar. Deixei as luzes do meu quarto acesas, pra não suspeitarem de minha ausência. Abri devagarinho as persianas e as janelas e descobri as vantagens de morar no térreo. Subi a rua com pressa. Escuro. E nem percebi que a essa hora da noite já não tinha mais metro. Então resolvi ir seguindo. Andando pela paulista a noite. De verdade, dessa vez, anônima e invisível, a rua vazia. De vez em quando alguém passava. Continuei andando, sem muito rumo, por dessa vez fugi sem fazer planos. Tinha pensado em deixar o celular em casa, mas não consegui. Pensei que seria bom deixá-lo ligado para ver quem me procuraria Continuei andando, com um pouco de medo, por estar muito escuro. O dia me encontrou na rodoviária. Parti em direção a santos. E quando me dei conta, meus pés estavam dentro da água. E só aí me apareceu um sorriso. E lá eu nem percebi que a dor de garganta que me incomodava ontem, já não estava mais. Já não estava ali o excesso de coisas não ditas. Quis sentar-me para escrever. Iniciei com as mesmas palavras de sempre. O mesmo jogo de tentar escrever e não conseguir. Tentar rir e não conseguir. Tentar chorar... Desisti de escrever. Era melhor só olhar para o mar. E imaginar, saboreando quase maliciosamente, como cada um descobriria que eu fugi. E pensei em ligar para alguém e desisti. Era melhor esperar. Comprei uma água de coco. Um milho. Fugi deixando um trabalho salvo no meu computador. Fugi deixando as férias remuneradas. Fugi deixando promessas. Fugi sentindo falta de promessas. Fugi com o celular ligado, não para atender ninguém, mas por curiosidade. Ele tocou algumas vezes. E eu nem fui ver quem era. Me interessava saber que ele tocava. Mas o quem não. Porque eu fugi sem contar para ninguém. Paradoxalmente postei no facebook;.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Minha mãe tem duas irmãs de sangue. Mas ela tem uma terceira irmã. E aí me faltam as palavras. Para uma terceira irmã da minha mãe talvez eu tenha tido pouco contato. Mas eu me lembro de um pão de pizza que ela fazia para as nossas partidas de buraco. Foi assim que a minha prima aprendeu a jogar buraco. E a gente dava uns choques de vez em quando e ela dizia que era bom, que as nossas energias combinavam. E aí morava um grande carinho, talvez nem tanto anunciado. E ela que me levou para um grande sonho da minha adolescência: um reveillon na Paulista. E ela que me acalmou no pré-vestibular. Ela que me deu um olhinho que eu carrego até hoje do lado das máscaras do teatro.
Até que... As reticências tomaram conta. E eu por medo, por essa minha estranha mania de me afastar das coisas com as quais eu não sei lidar, me afastei. E quantas vezes sonhei com ela abrindo os olhos de novo. Sonhei com um abraço. E acreditei naquela história de que era melhor guardar a imagem das pessoas em seus melhores momentos.
Me desculpe.
Eu queria que você soubesse do imenso carinho que eu tenho. Admiração mesmo, pelas suas respostas, seu sorriso.

7 de novembro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

sabe aquela expressão: para o mundo que eu quero descer. pois é, parei. parei por um dia. por um dia me escondi dentro de mim. mascando olho com séries bobas, jogos, besteiras da internet. por um dia eu quase me anulei. e não estudei teatro. não dei aula. não fiz nada do que pode ser considerado útil. vivi de inutilidades. e o dia quase chegando ao fim, resolvi escrever um rascunho. sem querer que as palavras fossem bonitas. uma vontade dolorida de chorar. assim, desafogar um peso. me desafogar. me esconder dentro de mim. péra mundo, pára mundo, gira mundo. que eu quero chorar. que eu quero sorrir. que esse rio não tá dando pé. me visto de todos os motivos para suportar. uma vontade dolorida de viver. por que é que a gente tem que trabalhar tanto até se transformar em máquina, ou manchar a alma de tédio. uma vontade dolorida de declarar uma liberdade que ainda demora 58 dias úteis. porque o pára um pouquinho, descansa um pouquinho parece não funcionar.
vontade de transbordar essa rotina. de não caber mais dentro dela. de não domar mais esse leão todos os dias, ao passar aquela porta. não quero me domar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Bolinha de papel


E insistiu em falar dele. Acreditou que dessa vez encontraria as tais palavras bonitas. Acreditou e pode ser até que se decepcionasse ao longo do texto. Mas ao som de Arnaldo Antunes quase arriscou-se a escrever em primeira pessoa. Riu-se. Quis encontrar palavras tão puras e belas como as da música: "te fazer feliz dos pés à ponta do nariz".
"Da orelha até o fim do mundo"? Outros lhe respondiam Pa-la-vras. Estranhou. Já tinha as dito alguma vez. Até seguido depois e quase apesar delas. Brincara com as letras em despedidas. Mas algo era maior do que aqueles desenhos. Descobria o que o mundo inteiro parecia já ter descoberto? Quis acreditar que era um achado só seu.
Aqui-agora. Havia um pulsar. Uma vertigem. Verdade. E lhe invadia em um sorriso. Vertigem. Podia então sorrir e seguir. (Já se sentira inteira seguindo apesar das palavras). Não quis. Des-palavreou-se. Negou os sentidos das letras.
Quis só olhar e dar as mãos. Hesitou, mas sentia-se "apaixonada pela primeira vez na vida". E pela primeira vez na vida não era adjunto adverbial de tempo. Era adjunto adnominal de sentimento. E havia um pulsar. Aqui-agora.
Pois é, decepcionou-se com as palavras. Não eram puras e nem bonitas. Nem falam do medo. Do sorriso. Do pulsar. Da vertigem. Nem da vontade que ele coubesse em seus braços e transbordasse.
Quis resumir em um abraço ou viver o tal abraço e transbordar.
Palavras. Despalavreou-se. As letras não pulsavam. Mas quisera que fossem bonitas. Decepcionou-se. (Riu-se. Quase em rubrica ainda queria tanto dizê-lo!)
Arrancou a folha de papel do caderno. Bolinha. Jogou no lixo.








(Sobrou um silêncio recheado de pulsares, sorrisos e verdades)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

entre Ela e Lori

chovia. por pura falta de palavras, começou este texto como tantos outros textos pretéritos. não só por falta de criatividade, mas porque queria que chorasse a chuva que por ela chovesse. e chovia. ao fundo, mesmo com a visibilidade restrita - não se sabe se pelos olhos ardidos vermelhos ou pela cinza da chuva - ela podia vislumbrar o mar.

mas ela não podia escrever sobre a mulher que de madrugada entrava no mar e tinha cabelos de náufrago. já estava escrito antes dela. se bem que... entrar no mar na chuva não ocorrera a Lori. e seria tão ela, tão Ela. e mas do que correr um perigo nunca antes feito por um ser humano, ia desafiar Lori. podia fazer o que todos já antes haviam feito, mas não a amante de Ulisses.

resolveu contentar-se em caminhar na chuva. as gotas escorrendo-lhe, grossas, pelo seu corpo nu coberto de roupas. a porta inevitável instalou-se à sua frente. porta que lhe dividia. entre a sexta e a segunda, ou entre a segunda e a sexta. respirou. e entrou.

respirou. e entrou.

respirou. e entrou.

respirou. e entrou.

respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.

não conseguiu gritar. não pode sair. podia entrar, todos os dias. entrar.

respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou. respirou. entrou.

não conseguiu entrar. não conseguiu escrever.

não conseguiu.

chegou então onde queria chegar. a junção do adverbio de negação NÃO, com o tal do verbo CONSEGUIR.

qual a melhor metáfora para falar sobre fracasso?

talvez fosse melhor recomeçar o texto com outra palavra. quando chovia, a natureza carregava em si uma realização. a chuva lavava o seu corpo nu coberto por roupas. caminhar era piegas mesmo, enquanto andava, ela movimentava dentro dela a dinâmica pensar-limpar.

restava-lhe esperar, ansiosamente uma visita ao mar. quem sabe ele ainda estava no mesmo lugar e ela pudesse brincar de Lóri?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

das coisas que a vida tem

a vida tem dessas mesmo. o ônibus tem o piso brilhante, que é pra gente lembrar de cantigas de infância. eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, só pro meu, só pro meu amor passar.

a vida tem dessas mesmo. uma semana de espera. e te pedem para ler esperando godot.

a vida tem dessas mesmo. assim, de repente, já é domingo a noite. e você, que não quer se lembrar da real ocupação, que lhe bate na porta junto com a tão famosa melodia "fantástica", descobre que é dia do ator.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

folha em branco


A menina olha-se no espelho. Como diversas vezes já tinha se olhado. Lá estava, cercada pelas paredes brancas, tentando encontrar no espelho aquilo que chamava EU – que nós chamaríamos ELA. Havia um quê de estranheza naquela imagem refletida no espelho. Imagem que não dizia sobre os seus desejos, seus medos e as suas dores.
            Terminava de se arrumar. Não eram seus aqueles traços ao redor do nariz. Nossa, como o seu nariz era engraçado, nunca tinha percebido aquele osso! Não que fosse muito saltado, mas ele estava ali, pendendo um pouco para o lado direito – ou esquerdo, afinal as imagens no espelho são invertidas.
Riu-se porque lembrou de Pirandello. Lembrou do pobre – pobre? – homem que descobriu-se um, nenhum e cem mil depois de perceber que tinha também traços não uniformes no rosto. Mas afinal, era isso mesmo que fazia, parafraseava pessoas quando escrevia.
Perguntou-se porque o rosto. Epifania. Seu rosto era uma página em branco. Podia ver os seus dedos, as suas mãos, seus braços, seus ombros, toda a sua barriga, seus seios, seu umbigo, as suas pernas e os seus pés. Mas quando tentava materializar o seu rosto, fora do alcance de um espelho, via-se diante de um vazio.
O rosto que tantos usavam para definir a personalidade de alguém, não lhe pertencia. Quis escondê-lo enquanto andava na rua. Irritava-a todos poderem vê-lo, perceber as suas alterações de humor, menos ela. Todos o liam, menos ela. Interpretavam-no. E quantos não falavam dos seu sorriso, que só existia para ela na frente de um espelho, momento em que não parecia ser seu.
Página em branco. Passou a mão tentando completar algum traço. Tentou cuidar de sua imagem. Saiu de casa. Andou por entre as ruas de todo o dia. “Seu Pessoa, quanto tempo!”. Pensou no que o sorriso dele lia sobre os seus olhos. Quis lhe perguntar, mas escondeu-se atrás das pessoas na rua.
Lembrou-se da música rolando à luz da lua cheia – há sempre algo do dia anterior que nos volta a tona enquanto seguimos nosso caminho. Tão bonita a lua! E pessoas, tantas pessoas em meio de burburinhos inaudíveis. Elas também interpretaram o seu rosto? Tinham feito tantas perguntas: Quem é você?, Me fale um pouco sobre você. Riu-se. Riu-se. Será que aquelas pessoas também não poderiam dizer quem era olhando o seu rosto? Incômodo. Como é que ela ia responder SOU?
Chegou à sala de aula. Novamente incômodo. Outra vez quis esconder o seu rosto. Será que podia de novo parafresear Pirandello e parar na frente da porta e estranhar o EU – ou o dito ELA – que encontraria nos olhos das pessoas que ali estavam? Riu-se novamente por lembrar daqueles rostos que lhe diziam: Você é paciente.
Vertigem. Nunca fora paciente. Não que fosse grande coisa atribuirem-lhe paciência. Nem que isso determinasse quem era. Mas em algo tão simples e tão banal como tal afirmação repetida por todos ali, não havia nem um pingo de EU – ELA. Vertigem. A sua amiga de infância gargalhava quando ela repetia o que tais pessoas lhe diziam: Você é a pessoa mais impaciente que eu conheço.
Começou a pensar nos diversos eu’s que conhecia. Sentia-se uma com cada uma daquelas pessoas. Cobrou-se a resposta: Quem é você?. Já haviam lhe dito da sua tal essência. Do quanto era inteira. Vertigem. Quis procurar as tais respostas. Eu sou bla, bla, bla, bla, bla. Pronto. Construiu com palavras a tal máscara “quem sou eu”.
Quis então brincar de ver os outros. Começou a jogar. Baile de máscaras. Achou engraçado ver que haviam tantas máscaras construídas com palavras ali. E mais ainda ouvir as pessoas falando de si. Elas tentavam controlar a página em branco do seu rosto com palavras. Bonito para o seu nariz, amoroso para a sua boca. Começou a ver letras nos brancos dos olhos, nos pelos das sombrancelhas e nas pontas das orelhas.
O que? As máscaras que ele construíra era diferente da que ela via nele. Começou, então, a construir ela a máscara das pessoas. E elas se diferenciavam tanto das máscaras que as pessoas se escolhiam. Que, a propósito, eram totalmente diversas das outras que os terceiros lhe atribuiam. Epifania. Vertigem. É assim também comigo?
Teve medo de agir. Sentiu-se presa às suas ações. Sabia que a liam e a classificavam por qualquer passo para o lado que dava. Sabia que haviam várias máscaras sobre o seu rosto. Construídas por palavras, por ações e pelas consciências dos outros. Começou a, freneticamente, tentar tirá-las. Até mesmo a máscara que ela atribuira a si, causava muita coceira.
E, depois que tirasse todos aqueles rostos, o que lhe sobraria? Quem sou eu? Qual a minha essência? Qual a tal palavra que pode me dizer quem sou?. Nome. O nome sou eu? Mas haviam tantos com o mesmo nome e outros tantos que escreviam o seu nome errado (haviam até aqueles que cismavam que escreviam certo, e que era ela não sabia escrever o seu próprio nome).
Quis construir qualquer coisa que lhe dissesse que era inteira. Mas começou a olhar à sua volta e duvidar do nome das coisas. De todos os nomes já pré-estabelecidos. E se a mesa se chamasse cadeira? Ou melhor, se se chamasse peteridófilas? (Sempre gostou daquelas palavras engraçadas de biologia, mas nunca gostou de aplicá-las onde estavam).
E se ela não tivesse palavras? E se ela pudesse não ser inteira? Vertigem. Sentiu-se por um instante pisando em nada. Tendo que pensar em cada passo seu, para não despencar. E se ela não fosse paciente, se não fosse impaciente, se não fosse bonita, se não fosse feia, nem inteligente? O que sobrava? Se ela resolvesse que ela não tinha nenhuma palavra que a segurasse e a determinasse?
Ela pensou que se resolvesse ser, por exemplo, inteligente, ela teria que sê-lo sempre. E como poderia prever qualquer forma de ser sempre igual? E não poderia ser diferente nenhum momento? Teve de novo medo de agir e de agir diferente do que era. Mas ERA?
Algo pulsava e ela existia. Ela existia mas não era uma palavra. Teve medo disso. Como Rontequim (tudo bem, permitiu-se parafrasear Sartre) ao descobrir que as coisas eram maiores que as palavras, ou melhor, que existiam sem as palavras. E que a existência era absoluta e absurda. Porque não podia ser controlada e nem definida com a priori’s.
Porque existiam? Não havia razões de ser e nem mesmo necessidade para existir. Não podia explicar que ela existia para ser boa ou má e representar tal papel na vida. Estava lá e nem mesmo era inteira. Tentou de novo controlar tudo isso com linguagem. Quis dormir e esquecer-se.
Liberdade? Era então livre? Não! Quis construir uma escultura para si. Quem sabe fixar-se uma forma qualquer. Não pôde. A existência era, enfim, absurda. Deus! Deus talvez pudesse explicar os seus atos. Ou a sociedade. Sim, ela era porque.... porque tinha que ser assim na sociedade e não poderia fazer de outro jeito. Porque... porque.. Quis ser má-fé. Quer dizer que os outros poderiam justificar as suas ações.
Vertigem. Não sou, estou. Não havia no fundo de si qualquer máscara verdadeira. Qualquer palavra final que batesse o martelo. Não havia como encontrar o que verdadeiramente era, porque verdadeiramente não era nada. E ao mesmo tempo, verdadeiramente, podia ser qualquer coisa. Ou melhor, era potencialmente tudo.
Verdadeiramente? Seria verdadeiro dizer qualquer palavra de si, já que ela não seria para sempre essa palavra? Estava livre das fórmulas. E agora? Dormir. Novamente tentar fugir de si. Não podia. Seu coração lembrava-se constantemente de que ela existia. TUM-TUM TUM-TUM TUM-TUM.
Potência. Engraçado pensar em si como potência. Pensar em si como algo que só existe no presente e que se constrói e se destrói a cada passo. E saber que era só ela que era responsável por si. Tinha medo de ser livre.
Sem nem mesmo ter percebido, já estava longe da sala de aula. Entrara no metrô. E começou a olhar para aqueles anônimos. Tentou brincar com eles. De repente o OUTRO lhe incomodou. Porque também era livre. E a sua liberdade confrontava-se com a da pessoa que estava do seu lado no metrô: ela não podia deitar-se no banco.
Novamente as máscaras. Os outros também eram livres e também podiam brincar com ela. Ditar-lhe quem ela era. O baile de máscaras ainda existia, mesmo ela sendo só potência. E o outro ser só potência. Era quase uma luta para ver quem construia primeiro a máscara de palavras para o outro. Para controlar o outro, antes que o outro a controlasse. Era difícil assim, ser tudo aquilo que quisera ser. Já que tinha alguém ou muitos alguéns tão livres como ela.
Como era então responder, em meio à essa luta: quem era? O que era estar “nuzinhos como minhoca”. Era resumir-se ao presente e às ações? Acreditou que sim. Que quando agia construia para si uma EU ou melhor várias ELAS já que cada um interpretava diferentemente as suas ações. Ou várias EU’s e várias ELAS’s já que era presente e não fixava-se.
Descobriu, depois de tudo, que só existia se o outro a visse. Caso contrário, era completamente sozinha. Mas que não podia ditar para o outro o seu um (escolhido ou ilusoriamente acreditado). Que os outros lhe faziam cem mil, de acordo com as leituras que tinham dela. É, o inferno são os outros! Mas que talvez fosse mesmo nenhuma, já que fixar-se seria morrer em vida.
Era potência, mas era controlada, uma vez que todos eram livres e potências pulsantes. E o baile de máscaras continuava. A realidade não lhe deixava ser toda a sua potência. Entendeu, então, porque era necessário suicidar-se filosoficamente. Porque não podia continuar sendo uma (ou fingindo ser uma) depois de saber que pulsava.
Depois de saber, que por mais que pré-estabelecesse algo, não poderia sê-lo simplesmente. Depois de saber que o ser era um pedaço do que queria ser e uns pedaços do que os outros liam. Depois de saber que era livre, mas que esbarrava com outras liberdades.
E saber que sua potência encontrava-se com um mundo real, onde bombas caiam, apesar de sua liberdade. Onde estava fadada a um cotidiano absurdo. A uma falta de linguagem absurda. A absurdas pessoas tentando escravizarem-se. Era nesessário optar pela consciência.
Então lhe pediram que escrevesse sobre o absurdo. Lhe pediram que falasse sobre Sartre, Camus, Becket, Rontequim, Godot, mal entendido, Paul, suicídio filosófico, Sísifo, Stelle, mortos sem sepultura, náusea, peste, Pirandello, Garcin, Marrie e máscaras. Pensou em escrever sobre o que tinha ficado nela de cada um desses autores. Uma vez que ela vivia num baile de máscaras, ações, verdades e tentativas de palavras e inteirezas. Tinha sido pulsante lendo Um, nenhum, cem mil. Já que estava, e não era.
Mas ela não conseguia descrever-se em primeira pessoa. É, só podia ser afastando-se de si. Só podia falar palavras de si, se olhasse no espelho e visse a página em branco preenchida – mesmo que não parecesse com o EU. Quis então tirar de contexto e citar Affonso Romano de Sant’Anna: “Página em branco onde eu escrevo, único espaço de verdade que me resta”.
Pensou na analogia que faria entre a página em branco e o ser enquanto potência. O rosto como página em branco e a máscara construída com palavras – por si e pelos outros. As palavras e as ações que não voltam. Pela atribuição de significados e pelo preencher de essências que fixavam uma forma morta.
Pensou até em resumir: Página em branco onde me escrevem – e eu me escrevo, único espaço de verdade que me resta. Ou restava.
Achou que seria melhor suicidar-se filosoficamente. Porque palavras eram tentativas de controle da existência, que por ser absurda e absoluta não podia ser só palavras. Nem mesmo os seres podiam ser só palavras. Como se comunicar então? Ou como escrever palavras em um papel e ter a certeza de que vão ler o que ela quis dizer?
Era melhor deixar as páginas em branco.

Introdução de um trabalho entregue para história do teatro. Ele foi seguido por uma capa e folhas em branco. Ao final das folhas, um epitáfio:

EPITÁFIO: “Página em branco onde eu escrevo. Único espaço de verdade que me resta”[1]. Página em branco onde me escrevem – e eu me escrevo, único espaço de verdade que me resta. Ou restava.

[1] SANT’ANNA, Affonso Romano de. A implosão da mentira.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

como cinco irmãos.

mãos dadas. lhe haviam dito uma vez que os amigos eram irmãos que a gente escolhia. talvez tivesse achado um pouco piegas. mas olhou discretamente para trás e descobriu que a amizade era assim como imaginava que talvez fossem dois irmãos. ou mais irmãos. e foi diretamente pensar em cinco irmãos que ela tinha. agora assim, meio espalhados nessa tal de vida adulta. ela, no meio de engenheiros e médicos. ela meio assim artista (tentando ser o que sabe-se lá o que é um artista). ela e a outra, também artista.
lembrou-se como foi o caminho até lá. das tais das voltas que o mundo dá. e não só as literais dos movimentos da terra em volta do sol e ao redor de si mesma (desses, por mais que tentasse não conseguia lembrar os nomes).
esses irmãos nasceram assim de uma época na qual ela teimava em não fazer escova. da mesma maneira que hoje continuava sendo chato esperar o cabelo secar com o secador, para não dormir de cabelo molhado. tarefa que acaba de abandonar para escrever.

ela perdida, eles ali. meio tímidos se aproximaram (ela e eles).
lhe perguntaram se podiam riscar no gesso de seu braço quebrado.
ela deixou.
lhe convidaram a sentar. ela se aproximou.
lhe sorriram. ela abraçou.

parecia então o tal do final feliz. talvez fosse apenas o começo.
escolhas. ideias. diferenças.
duas artistas, duas engenheiras, uma contadora, um médico.
as artistas fizeram ballet. as engenheiras fizeram poli. a contadora casou. e o médico sumiu.
a atriz foi ensaiar aos domingos. a radialista tem os finais de semana loucos. uma engenheira foi fazer mestrado, a outra estagiar na construção. a contadora foi se deliciar na culinária. o médico? sumiu!

e dessas escolhas surgiram caminhos e curvas. e outras escolhas.
e nem sempre tudo foi fácil.

a atriz, mais conhecida como eu lírico desse texto, as vezes sentiu algumas mudanças. (com certeza as outras também sentiram, mas o eu lírico desse texto não é onipresente). chorou algumas escolhas, negou alguns desencontros. achou que era demais.

e de repente se viu ali. no meio deles. sem timidez e sem dúvidas. certa do como era bom sentí-los por perto. e do como, depois dessas voltas, os sentia mais perto.

elas se encontram no próximo sábado. ele respondeu um email
nada apaga os anos de convivência diária.
nada apaga o cuidado que queria ter com cada um.
nada diminui o amor e o carinho.

nem mesmos as diferenças sustentam os rótulos.

são confidentes como dois irmãos. ou cinco.

domingo, 13 de maio de 2012

E ele me diz que gosta de mim quando eu sou eu, mesmo de tpm e, com as consequentes lágrimas nos olhos. E o amor no dia a dia é assim. Perde a sua pretensão de ser perfeito. E passa a ser pretensiosamente concreto, real. Colorido de detalhes, aquarelado com momentos, carinhos, cariño... Giz de cera que se despedaça em sentimentos, sensações. Porque eu até posso tentar ser perfeita para ele, mas todas as tentativas, me levam a quem eu sou. Assim, desse jeito, menina, menininha, que eu sou só do seu lado (que eu nego até a morte). Sem armas, desarmada em cócegas, perdendo a concentração... Ele eu deixo me conhecer frágil e pequena. Ele eu respeito, eu quero do meu lado, eu admiro demais.
EU AMO.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

E lá foi ela, voltar a alguma página em branco para desengasgar as imagens e as palavras amontoadas na sua garganta. Ontem elas dançaram até que ela sentisse as pernas bambearem. Até que ela dançasse por cima de suas pernas, de suas angústias e retomasse o controle das suas pernas. E bambeava também nas palavras e nas frases. Parecia não ter esperança de que algo saísse bonito. Escrever era doído, assim como era esse cotidiano, essa "vidadegentegrande".
Não tinha palavra melhor que essa: frustrada. E a frustração carregava um desengano, que aumentava a frustração, que aumentava o desengano. Queria pedir desculpas e dizer que não havia se formado para isso. E como não acreditava, não sentia tesão, parece que tinha se feito um nó, um nó que aumentava a cada volta da bola de neve, a cada sentido des-sentido.
Não por acaso a sua porta de entrada para Arnaldo Antunes era Socorro. Não sentir para ela era a maior dor. E lá, infelizmente ela não sentia. Não conseguia compreender como não se sentia empolgada nem mesmo em participar de uma greve, de uma organização de classe. Com que pretensão inconsciente ela não se sentia dessa classe. Ela era professora. Ou pelo menos estava professora (e professora de artes, sim, por mais que não quisesse). E não tinha como negar esse desencanto. Desencanto que ia pesando em suas costas, cumulativamente mais curvada. Eu sua voz, que se acumulava nas bolas entaladas em sua garganta. Na falta de seus textos. inconsciente Passava as aulas pensando nas palavras que ouvira de sua última diretora. O que havia se perdido no caminho de são bernardo a são paulo? Por que as suas aulas, diferentes das de outros professores, segundo a diretora, se tornara igual à de todos (ou a dos piores)? Por que as palavras lhe faltavam e não conseguia escrever? Por que a vertigem lhe tomara conta, suavemente, levando os seus pés,, suas pernas, seu estômago, suas crenças e suas aulas?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Não se parecia com ela. Desde aquele corte de cabelo estranho àquelas lágrimas sem controle na face. Não era como se houvera mudado. Aos seus olhos a explicação era mais triste, mais determinista. Aliás, olhos tão estranhos esses. Não se reconhecia nos seus olhos, nem a seus olhos, nem por seus olhos.

Era incômodo sentir como se algo falasse por si, agisse por si.


domingo, 11 de setembro de 2011

11 de setembro


Ela, com o mundo entalado em sua garganta (de um jeito que só os TCCzistas podem compreender) não queria voltar pra casa. Saiu da faculdade com ele, como fizeram tantas outras vezes. E saíram para comer um cachorro quente.Só que como ela não comia cachorro quente, comeu um pão de morango com chocolate. E se melecou inteira como criança. Eles riram.
Ele riu. Ela riu. Sem darem as mãos (apenas tocando-as vez ou outra), seguiram. Seguiram pelo metrô, pela avenida paulista. Sem saber porquê, foram parar no conjunto nacional. Lá de onde ela gostava. De lá de cima, onde podiam ver a querida avenida. De uma noite que se tornaria querida. E se olharam. E pra fugir dos olhos dele, ela olhou pra frente e disse algo não muito poético: “Olha o itautec!”. Mas para eles foi quase poesia, porque os dois perceberam que foi quase um beijo, quase um abraço, quase uma declaração.
Um flash depois (desses flashes da nossa memória), eles estavam sentados na mesa de uma lanchonete. Brincando de “sério”. De tanta vontade que tinham de se olhar. E ela perdia a brincadeira de propósito, porque ele a desconcertava.
Então, ela o acompanhou até o ponto. Ele a abraçou. E se beijaram. E mais uma vez ela veio com algo não tão romântico (eita menina teimosa), lhe dizendo que não sabia se era uma boa ideia. Ele concordou que talvez não fosse. Mas, apesar de suas palavras, não conseguiram se largar. E acordaram que era só durante aquele dia. Combinaram tão bem combinados que trocaram mensagens assim que chegaram em casa. E combinaram tão bem combinados que sábado foram a uma festa juntos, na qual combinaram que ninguém precisava saber deles (e é claro que todo mundo ficou sabendo). Combinaram também que não iam namorar. E nem preciso dizer que quebraram esse combinado também.

Ah! essa história começou num dia 11 de setembro.  Há três anos atrás...

sábado, 10 de setembro de 2011

Pequenos



Ela quis escrever em terceira pessoa sobre felicidade.
Ela quis escrever em terceira pessoa.
Ela quis escrever.
Ela quis.
Ela.



Calou-se.




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quis escrever um texto sem pontos sem virgulas e sem paradas
outalvezjuntarasletrasassim



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Momento que não tem tempo. Se chama instante.


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Chouveu de novo a chuva que chorou por mim...
Chorou de novo a chuva que choveu por mim...

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"Sou uma gaivota. Não, não, não, sou uma atriz. Uma atriz."
Nina se descobre atriz quando se nega gaivota.
Em busca da laicidade do teatro.





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Ainda podia ouvir uma música suave. O eco de uma risada sincera. Os dedos entrelaçados. O tango.

Ainda tentava brincar com as palavras.

Riu-se. E só.

"something is changing beside you and don´t you know"



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Ele coube em seus bracos e transbordou. Depois bordaram um abraco. E foram por um instante um. Eternidades.
E ela quis declarar que era tambem feita de despedidas.


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para o meu cariño



Dele tinha umas saudades que tomavam todo o seu corpo. Umas saudades que chegavam assim, de repente, e dava uma vontade incontrolável de dizer: cariño. Dele tinha umas saudades, que eram assim, gosto de morango. E mesmo sendo saudades, dela tinha uma sensação de não estar mais sozinha.
E nele tinha um sorriso bonito. E nela, uma risada que era só dele. Ou só pra ele. Ou só daquele sorriso dele.
E eles tinham carinho.
Para o meu cariño.

A recepcionista (uma de nossas mulheres)




O relógio apita: são seis horas da manhã. “Droga”, ela pensa, “só mais cinco minutos”. Ah! Esses famosos cinco minutos. E mais cinco, e mais cinco. Meio em transe, dorme e acorda, até que se assusta: “Já está tarde”. Durante o café da manhã, lê o jornal. Lê as primeiras notícias, mas se engasga na matéria cobre maneiras de investir o seu tempo. É melhor apressar-se. Escova os dentes e cospe a espuma, como se cuspisse junto com ela, seu sono.
Se arruma, se apruma, se veste. E guarda seus sonhos e suas vontades lá numa gavetinha escondida dentro de si. Se prende no uniforme. E assim, inicia mais um dia de trabalho. Digita, o telefone toca algumas vezes. E inventa mil desculpas ao telefone, porque o seu chefe está lá dentro e não quer ser incomodado. Talvez esteja lendo o jornal, jogando paciência. Ou... quem sabe esteja com a Ritinha. Acha que é melhor não conjecturar muito. Volta ao trabalho.
Um e-mail inesperado. Fica feliz. Será que usa aquela lingerie? Ah! Esse maldito telefone: “Alô, me desculpe, o Sr. Alberto está em reunião, anoto o seu nome e ele já te retorna”. Será que usar a lingerie, deitar-se com ele assim de primeira, é se oferecer muito? “Porra, cadê a Marcinha que não entra no msn?”
Chega o seu Alfredo, “Aquele chato”. Vamos lá, recepcioná-lo. Paradoxalmente, é obrigada a se oferecer para ele, oferecer seu melhor sorriso, sua simpatia (o que é quase como ter que oferecer o seu corpo todo). E ele lá, com as mesmas gracinhas de sempre. “Velho chato”.
Finalmente ele se foi. “Só” faltam mais cinco horas de trabalho e o escritório está tão calmo. Tantos relatórios, e-mails. E assim, um marasmo lhe assoma, um cansaço daquilo tão feito, refeito, repetido. Lentamente, digita até cair no sono.

(texto de um processo que conta com Fernanda Moreno e Flávia Coelho)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Como é que a gente representa em um post uma encruzilhada?